Desmame (quase) natural: uma carta de despedida

Querida Sophia,

Hoje, depois de 15 dias a seco, acredito que posso falar que a nossa trajetória láctea chegou ao fim. Foram quase 38 meses… para ser precisa, foram 1152 dias de teta, de trocas entre a gente, de muito mais do que alimentação.

Da apojadura cheia de calafrios aos 60 dias convivendo com fissuras que doeram mais do que o seu parto, passamos por muita coisa. Foram 3 mastites, uma lactogestação recheada de perturbação, 9 meses de ordenha diária no trabalho, muitos vazamentos em locais e horários inadequados, 14 meses de amamentação em tandem… não foi nada fácil!

Optar por ofertar a você apenas o meu leite foi desafiador. Envolveu bastante entrega, alguma abdicação e, principalmente, a decisão de fechar completamente os olhos e ouvidos para quaisquer interferências que pudessem minar minha confiança e determinação em seguir te amamentando até quando a gente quisesse.

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Chegar até aqui foi sambar na cara de um sistema que prega a facilidade da mamadeira, a erotização da mama e a incapacidade da mulher em nutrir sua cria com o que produz. Foi passar por cima de olhares e comentários maldosos, foi não se importar com peitos de fora, com mamilos polêmicos. Nós conseguimos, filha!

Tenho muito orgulho do caminho que trilhamos nesses 38 meses. Nunca vou esquecer do medo que eu tinha de não conseguir produzir a quantidade de leite que você precisava. Antes de entrar na barca da maternidade, acreditava na falácia do “tamanho é documento” e ficava apavorada com a possibilidade do meu peitinho não dar conta do recado. Que engano…

Amamentar prolongadamente me ensinou muito. Entendi que a natureza é sábia, que nosso corpo é um templo maravilhoso, auto-suficiente e perfeito. Aprendi pele a pele o que é cumplicidade, o que é olho no olho, o que é segurança e porto seguro de verdade. Aprendi o que é amor. A imagem do seu olharzinho mamando jamais sairá do meu coração. Por muitas vezes, nos momentos mais difíceis, foi a lembrança daquele olhar que me deu gás para seguir persistindo e superar a vontade de desistir.

Não tenho vergonha de te dizer que tive vontade de desistir por várias vezes. Que já senti raiva, que já me senti idiota, que já quis que você desaparecesse depois de me dar uma mordida dolorida. Precisamos falar sobre as dificuldades, gritá-las aos quatro ventos. Vivemos numa sociedade que romantiza a maternidade e o aleitamento como algo imaculado, sagrado e que deve passar por cima de qualquer sacrifício. Não deve! Amamentar é uma via de mão dupla, é um relacionamento entre dois seres. Se um dos lados está descontente, é preciso rever a relação.

Sophia, as mulheres não se preparam para amamentar. Nos é incutido que isso é automático ao se tornar mãe. Nasceu, plugou, mamou. A vida real não é assim, não! Eu mesma, antes de você chegar, não tinha muita ideia do que me esperava até te ver ali, plugada em mim sorvendo vida. Com vergonha, confesso que achava meio esquisito criancinhas grandes mamarem. Confesso que gastei os tubos comprando um kit de mamadeiras caras porque achei que você super precisaria delas… Que felicidade saber que a informação nos faz progredir e revisitar nossas crenças e atitudes, minha filha.

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Depois de percorrermos toda essa trilha de amor líquido, cheguei ao momento de parar. Você se tornou uma menininha independente, descolada, espirituosa e muito segura de si. Não precisava mais da muleta do mamá para seguir em frente. Observei atentamente aos seus sinais para tomar a decisão de não amamentá-la mais. O primeiro “não” foi difícil de dizer. Me senti horrível por ter o leite ali, disponível, e não permitir mais que você o acessasse. Do fundo do meu coração, eu gostaria que o desmame tivesse partido de você. Teria sido mais tranquilo para o meu coração, mas eu estava no meu limite mesmo.

Estou feliz com a forma como esse desmame (quase) natural foi conduzido e com a sua delicadeza e maturidade ao encará-lo e aceitá-lo. Cada gota de leite que produzi te nutriu com o meu mais puro amor, que vai muito além do meio líquido. Esse amor ecoa em cada poro, em cada gesto, em cada respirar. Muito obrigada por me proporcionar tamanha dádiva!

Com amor,
Mamãe ♥