Relato do parto da Sophia

Hoje, 4 de maio, é aniversário da Sophia! Minha cremosa completa 3 inacreditáveis anos! Como o tempo voou!

Para celebrar esse dia tão incrível, compartilho o relato do nascimento dela, que aconteceu na nossa casa, sob os cuidados das fadas da equipe da Mamatoto Parteiras Urbanas.

Gratidão eterna pelo dom da vida, pelo sagrado feminino, pela oportunidade de ter vivido uma experiência tão maravilhosa, transformadora e abençoada! ❤️

“Acordei às 6h30 da manhã naquele domingo, 3 de maio, para concluir o ensaio fotográfico da barriga. Por conta de uma falha na câmera da fotógrafa, alguns dias antes, tivemos que remarcar uma nova data e postergar os cliques para as 38 semanas de gestação. Fiquei um pouco contrariada pois estava um pouco mais inchada do que gostaria para as fotos, mas não tive escolha.

Senti um leve enjoo ao levantar, mas dei de ombros. Achei a sensação nada fora do normal dos últimos dias daquela semana. Me arrumei, organizei os looks escolhidos para o ensaio e saímos para pegar o metrô. O cenário escolhido foi a Avenida Paulista. Queria que a lembrança da gravidez tivesse um quê de urbano e trouxesse lá na frente uma retrospectiva de como era um dos grandes cartões postais de São Paulo em 2015.

Encontramos a Tatiana, a fotógrafa, e fomos caminhando ao longo da avenida. Paredes com lambe-lambe, obras em construção, entrada das estações… Todos os pontos bacanas e diferentes da Paulista serviram de fundo para as poses barrigudas que fizemos.

Da Consolação ao Paraíso, conseguimos finalizar todos os cliques desejados e paramos para tomar um suco. Um solzinho agradável aquecia a manhã e nos convidava a retornar por mais 2,7 km até o ponto inicial dos trabalhos.

Após nos despedirmos da fotógrafa, próximo ao horário do almoço, resolvemos esticar a estadia na região e almoçar no shopping. Já era meio-dia e bateu uma fominha estratégica. Entramos na praça de alimentação do Center3, escolhemos os pratos e sentamos para comer. Ao levantar para ir embora, senti uma sensação engraçada de estar molhada. Quando olhei para a cadeira, havia uma poça de água.

A bolsa tinha estourado! Olhei para o lado e vi um grupinho de rapazes observando o que acontecia. Eu estava vazando água. Tensão. Tratei de correr até o banheiro para trocar de roupa e colocar algo que absorvesse aquele líquido todo. Além de inundar minha roupa, aquela água me fez mergulhar na expectativa do que viria pela frente. Minha filha ia nascer sei lá que horas. Estava com tudo em casa por fazer, inacabado. Qual seria o protocolo naquele momento?

Saí do banheiro e dei de cara com um Rafa apreensivo, querendo ir rápido para casa. Fomos andando o mais depressa que podíamos, mas após alguns passos percebi que, quanto mais rápido caminhávamos, mais o líquido vazava por entre minhas pernas. Resolvemos reduzir a marcha e tomamos um táxi. Por mim, pegaria o metrô, mas o Rafa tomou as rédeas da situação e me impediu de querer fingir que estava tudo normal.

Entramos em um táxi que, por sorte, tinha banco de couro. Sentei bem na beiradinha do banco para que, em caso de algum vazamento, o impacto no carro fosse o menor possível. Deu certo e o veículo saiu ileso. Ao adentrar o prédio, o primeiro desafio: subir os 3 andares de escada. Essa tarefa, que já estava difícil por conta da barriga, foi quase impossível de se concluir. Cheguei no andar de nossa casa ofegante e molhada.

Enfim em casa, decidimos avisar a equipe do que havia acontecido, até porque essa ruptura precoce da bolsa sequer tinha passado pela nossa cabeça como possibilidade. A primeira pessoa a ser avisada foi a Ana Cris, nossa parteira. Ela nos alertou que o processo a partir de então poderia ser uma caixa de surpresa: a coisa poderia evoluir rápido como demorar mais de 72h para acontecer. Nos pediu para manter contato regular com ela, para ir informando a evolução das coisas e deu uma dica preciosa: tentar descansar o máximo possível.
Claro que não consegui seguir essa recomendação. Estava tão ansiosa com os acontecidos da manhã e tão perplexa que as coisas estavam desorganizadas em casa que resolvi aproveitar a tarde para colocar tudo em ordem.

Antes disso, ligamos para nossas famílias para contar a novidade. Todos surtaram, choraram, me mandaram ir para o hospital. Não consegui entender, naquele momento, o porquê de tanto desespero. Estava tudo bem comigo e com a bebê. A grande hora estava chegando…

O Rafa resolveu descansar e eu tratei de fazer o que ainda faltava em casa. Passei uma pilha de roupas da bebê, guardei o que estava fora do lugar, fiz lista de mercado, pois a geladeira de casa estava vazia, lavei o banheiro… passei a tarde absorta nos afazeres do lar e em meus pensamentos e expectativas. Como não tinha pensado que a Sophia poderia antecipar sua chegada? Me preparei tanto para uma possível demora na evolução das coisas que desconsiderei que, quando se está na reta final de uma gravidez, qualquer coisa pode acontecer e que temos que estar precavidos para tudo.

Não tinha registrado meu plano B para o parto, não tinha feito uma mala caso tivesse alguma eventualidade, sequer tinha um pijama adequado para o pós-parto. Além disso, estava sem celular e não tinha como registrar com decência a chegada da Sophia. Fiquei incomodada com isso.

O dia passou rápido e, no final da tarde, passei a sentir cólicas. A dor era na mesma intensidade das cólicas menstruais que tinha no início da adolescência. Eram bem intensas, mas nada impossível de suportar. O líquido amniótico continuava vazando, mas de forma mais branda. Ao longo do dia, gastei um pacote inteiro de absorventes noturnos.

Quando o Rafa acordou, já a noitinha, disse a ele que precisávamos ir ao shopping pois tínhamos muito o que resolver. Num primeiro momento, ele titubeou em querer sair, mas protestei e reforcei a importância de solucionar aqueles pontos que me incomodavam. Ele concordou, tomei um banho, coloquei um vestido e saímos.

Compramos o pijama, o celular, jantamos e resolvemos ir ao mercado. Ao adentrar o primeiro corredor, senti a primeira contração. Era uma dor parecida com a cólica, mas mais intensa e pontual. A dor veio com um pico mais intenso e depois sumiu. Começamos a marcar o horário que sentia dores similares àquela. O intervalo inicial entre cada contração começou em 40 minutos. A medida que a noite foi caindo, o intervalo foi reduzindo… 25, 17, 12 minutos.

A intensidade das contrações, de forma geral, era bem suportável. Não senti nenhuma dor fora do comum e conseguia falar durante os picos. Estava em pródomos há algumas horas, mas ainda bastante disposta.

Com a chegada da madrugada, recebi a visita dos meus pais pulando na bola de pilates. Tudo estava preparado para o parto. A bola foi estrategicamente posicionada ao lado da piscina para o parto, na sala, que estava iluminada com um cordão de luz que proporcionava uma iluminação bem agradável.

Eles estavam estupefatos com a agilidade das coisas e clamaram para que fosse a um hospital receber algum tipo de assistência. Disse que não, que estava tudo sob controle e sendo acompanhado, o que era verdade. Estava serena e decidida a seguir em frente com meu plano inicial, que era parir no aconchego do meu lar.

Após me despedir de meus pais, recebemos a Renata, nossa doula, às 2h da manhã. Nesse momento, as contrações iam e vinham com um intervalo de 10 minutos. A medida que as horas foram avançando, as dores foram ficando mais intensas e minha lucidez durante as contrações foi diminuindo.

Comecei a sentir muito enjoo, vomitei e não conseguia comer nada. A Renata me ofereceu maçã com mel, para energizar, leite quentinho com canela, para acelerar o trabalho de parto, e massageou muito a minha lombar. Parecia que, a cada contração, meu corpo se partiria ao meio. A massagem era feita de forma a “fechar” minha coluna. Eu literalmente estava me abrindo toda para a passagem da Sophia e a massagem aliviava muito essa sensação.

No início da manhã, as dores eram muito fortes. Não consigo lembrar de tudo com nitidez. Tenho flashes de momentos específicos da minha pessoa se apoiando no frigobar, no parapeito da janela e no batente da porta para tentar amenizar a sofrência. Também me lembro de ver o Rafa circulando para lá e para cá. Ao longo de toda a noite, ele permaneceu implacavelmente ao meu lado, ora anotando o horário das contrações, ora tentando me manter calma. Ele foi meio esteio durante todo o processo.

Apesar da intensidade da dor, em nenhum momento senti vontade de chorar ou de gritar. Estava tão concentrada e sentindo que daria conta de absorver aquilo tudo sem grandes traumas que não senti que era insuportável. A cada contração que passava, contabilizava que era menos uma para aquilo tudo acabar.

Quando estamos parindo, perdemos a referência de tudo. Não sabia horários, não sei como trocaram minha roupa e nem se falei alguma coisa muito bizarra. A única coisa que sabemos é que o bebê precisa nascer logo. Lembro de estar bastante aflita com chegada da Letícia, parteira parceira da Ana Cris. Eu estava muito cansada e precisava que ela chegasse para que tivéssemos uma noção real da evolução do trabalho de parto.
Ela fez uma breve avaliação minha e foi para a cozinha falar com o Rafa.

Quando ele voltou, prontamente perguntei se ia nascer logo, questionei o que ela tinha dito. Ele me respondeu, com toda a calma, que estava quase no fim, que logo ia nascer. Na verdade, ele escondeu o diagnóstico que a Letícia deu: ela achou que eu estava muito lúcida e que a barriga ainda estava bem alta. Para ela, eu só iria parir a noite. Para não me desanimar, ele resolveu omitir a verdade e me motivar a seguir em frente.

Após aproximadamente duas horas na mesma situação, com contrações bem doloridas de 3 em 3 minutos, resolvemos que era hora de fazer o exame de toque. A Renata comentou com a Letícia que eu estava a manhã inteira encarando tudo com bastante tranquilidade e que isso poderia estar mascarando a real evolução do caso. Dito e feito: mal conseguia deitar na cama para fazer o toque. Estava com dilatação total.

Ouvi a Letícia ligar para a Ana Cris e pedir para que se apressasse, pois não ia demorar muito para o parto acontecer. Quando ela chegou, a piscina de água já estava cheia no meio da sala. Estava tão fora de mim entre uma contração e outra que não percebi a movimentação dos três para que a água fosse colocada ali.

Entrei na água em quatro apoios. O contato do corpo com aquela água morna me proporcionou uma sensação boa de relaxamento. Minha vontade era ficar ali, naquela posição, até a Sophia nascer. No entanto, fui acometida por um momento de racionalidade extrema e pensei que seria horrível estar de quatro nas fotos do nascimento. Por conta disso, fiz um esforço sobre-humano para deitar de barriga para cima. Hoje acredito que o expulsivo teria sido muito mais rápido se eu tivesse me mantido na posição mais confortável inicialmente.

Estava calma entre um puxo e outro, a ponto de conseguir falar e interagir com todos que estavam na sala. A vontade de fazer força veio naturalmente e deixei o processo fluir naturalmente. Ao todo, foram 4 puxos até a Sophia coroar.

No último puxo, a Ana Cris questionou se eu queria sentir a cabeça da Sophia. Tive aflição e preferi não tocá-la. Nessa hora, o Rafa ficou ao meu lado, fora da piscina, para que eu fizesse a força final. Ela escorregou magicamente e, meu instinto falou mais alto: com um braço enlacei seu corpinho e a tirei da água.

Naquele momento, todo o sofrimento e cansaço foram substituídos por um amor e emoção sem tamanhos. A adrenalina era tamanha que sequer consegui chorar. Saí da piscina amparada e fui direto para minha cama.

A Sophia mamou logo após o nascimento e seu cordão umbilical só foi cortado depois que parou de pulsar. O Rafa fez a separação com um bisturi. Também esperamos o nascimento da placenta, que foi feito de forma natural e respeitosa. Só depois de todo o processo de nascimento acontecer, é que a medida e pesagem foram feitas. Sophia nasceu com 3.260g e 48 cm. Não tive nenhuma laceração e estava apenas com fome após o parto.

A chegada da Sophia desconstruiu todas as minhas referências e crenças. Nasceu junto com aquele pequeno ser uma mulher empoderada. Descobri dentro de mim uma força que não imaginava ter. Descobri que meus instintos são minha melhor ferramenta para encarar as dificuldades que a vida oferece. Descobri ser determinada para peitar minhas decisões e enfrentar as consequências dela. Descobri que nasci para ser mãe. E agradeci pela oportunidade de poder maternar e formar um ser humano que fará a diferença no mundo.”